Outro dia estava lendo um livro e vi uma idéia que me pareceu ser apenas minha (quem me dera!) e puxa, outros também a tiveram. Restou-me apenas o breve consolo da criação não original. A minha idéia estava expressa neste poema que escrevi nos idos de 1990:

Pequeno excerto dos pensamentos de um homem que ouvia Beethoven

Uma sonata tão patética como a minha existência.

Lembro-me de algo que li
não sei onde nem quando, algo similar a:
"A única coisa a qual o homem realmente tem
certeza é que a vida não tem sentido."
E eu concordo.

Às vezes, é estranho, fico sentindo saudades
das coisas que ainda não fiz porque estou
por fazê-las.
Patético como sou, não há.
A valsa que dancei, ou melhor, que imaginei
ter dançado não foi suficiente.
Morri antes de terminá-la.

Como existir?
Quais foram os erros se é que existiram?

Talvez tenha saudade de viver
por estar ainda por viver.

E aí lendo o livro "A descoberta do mundo" da Clarice Lispector achei estes dois trechos:

Teus olhos verdes são maiores que o mar.
Se um dia eu fosse tão forte quanto você
eu te desprezaria e viveria no espaço.
Ou talvez então eu te amasse.
Ai! que saudades me dá da vida que nunca tive!
Tom Jobim

e ainda

Lembrar-se do que não existiu
Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu. Como conseguirei saber do que ao menos sei? assim: como se me lembrasse. Com um esforço de memória, como se eu nunca tivesse nascido. Nunca nasci, nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é em carne viva.
Clarice Lispector



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